O princípio da reciprocidade
  • Cláudio Cabral

    Imagine você caminhando nas estradas poeirentas da Galiléia há mais de 2000 anos. E olha só, você está, por acaso, acompanhando uma comitiva que está com um rabino, um mestre, diferente de todos da religião oficial, o Judaísmo. Ele fala com uma autoridade e um amor diferente de todos. E mais, ele toca nas pessoas, é atencioso, terno, conversa com os mais fracos, ama as crianças e não trata com desprezo as mulheres. Os velhos o admiram e os jovens querem segui-lo. E, através de suas mãos, acontecem coisas incríveis como pão ser multiplicado na frente dos olhos de todos, cegos voltarem a ver, paralíticos andarem, surdos voltarem a ouvir e falar. E muitas outras maravilhas.

    Tem um grupo de homens que segue este mestre mais de perto. São 12 homens escolhidos por ele. E tem um rapaz, que chama a atenção, por algumas atitudes bastante esquisitas.

    E como você fica sabendo? Perguntando aos companheiros mais velhos daquele grupo. Eles relatam que uma vez este rapaz viu alguém expulsar demônios em nome do mestre; não teve dúvida,  ele proibiu e falou o que tinha feito ao mestre, como tivesse feito grande coisa. Outra vez, sabendo que o mestre queria ir para um determinado local, mas os habitantes dali não queriam receber este novo rabi. Ele não teve dúvida: perguntou ao mestre se queria que ordenasse “fogo do céu” para matar aqueles homens maus. Lembraram  do profeta Elias? Ah, esta é a melhor de todas: pediu para o mestre que ele e seu irmão tivesse uma posição de destaque junto ao mestre quando ele se tornasse rei. Um ficando à sua direita e outro à esquerda, do seu trono. Só isto! Até usou a sua mãe para fazer um lobby junto ao mestre.

    Características como exclusivismo e ciúme, orgulho e falta de misericórdia e uma auto-imagem distorcida e soberba, talvez até o fato de ser um rapaz mimado por sua mãe, faziam parte da vida deste nosso personagem.

    Este rapaz certamente não estava vivendo como um “discípulo normal”, dentro da normalidade da vida cristã, segundo podemos aprender na Palavra de Deus.

    Antes de continuar, permita-me abrir um pequeno parêntesis.

    VIDA CRISTÃ NORMAL

    O que é uma vida cristã normal? Posso resumir a vida cristã normal nos seguintes pontos

    1. É uma vida com plenitude, com abundância. (Jo 10:10)
    2. É uma vida cheia do Espírito Santo. (Gl 5:25)
    3. É uma vida que manifesta o fruto do Espírito e dá frutos (Gl 5:22;23 /Jo 15:5 /Jo 15:8)
    4. É uma vida onde há crescimento no conhecimento de Deus. (II Pe 3:18 / I Co 2:14;15)
    5. É uma vida que irá enfrentar problemas (tribulações, perseguições e dramas da vida humana, mas será vitoriosa.) (Jo 16:33)
    6. É uma vida  com intencionalidade e propósito. Sabendo qual o seu chamado, seu propósito e sua missão. (II Co 5:15-17)
    7. É uma vida que se santifica cada vez mais. (Ap 22:11 / Hb 12:14)
    8. É uma vida que tem JESUS CRISTO como o centro da sua vida, como sua prioridade máxima. (Mt 13:45)
    9. É uma vida que tem certeza da sua  salvação, mas que é ativa. (Ef 2:8 / Tg 2:17)

    Para vivermos uma vida cristã normal é necessário conhecermos alguns temas e princípios da Bíblia para que possamos viver integralmente o que Deus Pai planejou para nós. Vou tratar, neste série de estudos, alguns pontos importantes para alcançarmos, pela graça de Deus, esta normalidade.

    O primeiro, desta série, é…

    O Princípio da Reciprocidade 

    Na Palavra de Deus vemos um princípio muito claro, que devemos nos atentar. É o princípio da reciprocidade. Reciprocidade é “o ato de ser recíproco; é o que se dá ou faz em recompensa de coisa equivalente; mutualidade.”

    Observamos em várias passagens bíblicas este conceito expresso de forma muito clara. Vamos começar com alguns no Antigo Testamento (os grifos são meus).

    Antigo Testamento

    I Sm 2:30 “ Honrarei aqueles que me honram, mas aqueles que me desprezam serão tratados com desprezo.”

    II Cr 15:1-4 “Veio o Espírito de Deus sobre Azarias, filho de Odede. Este saiu ao encontro de Asa e lhe disse: Ouvi-me, Asa, e todo o Judá, e Benjamim. O SENHOR está convosco, enquanto vós estais com ele; se o buscardes, ele se deixará achar; porém, se o deixardes, vos deixará. Israel esteve por muito tempo sem o verdadeiro Deus, sem sacerdote que o ensinasse e sem lei. Mas, quando, na sua angústia, eles voltaram ao SENHOR, Deus de Israel, e o buscaram, foi por eles achado.”

    II Cr 16:7-10 “Naquele tempo, veio Hanani a Asa, rei de Judá, e lhe disse: Porquanto confiaste no rei da Síria e não confiaste no SENHOR, teu Deus, o exército do rei da Síria escapou das tuas mãos. Acaso, não foram os etíopes e os líbios grande exército, com muitíssimos carros e cavaleiros? Porém, tendo tu confiado no SENHOR, ele os entregou nas tuas mãos. Porque, quanto ao SENHOR, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente dele; nisto procedeste loucamente; por isso, desde agora, haverá guerras contra ti. Porém Asa se indignou contra o vidente e o lançou no cárcere, no tronco, porque se enfurecera contra ele por causa disso; na mesma ocasião, oprimiu Asa alguns do povo.”

    Sl 18:25-26 “Para com o benigno, benigno te mostras; com o íntegro, também íntegro. Com o puro, puro te mostras; com o perverso, inflexível. Porque tu salvas o povo humilde, mas os olhos altivos, tu os abates.” 

    Novo Testamento

    Vejamos alguns do Novo Testamento:

    João 14:21 – “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.”

    II Tm 2: 11 “Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele; se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele, por sua vez, nos negará; se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.”

    Tg 4:8  “Chegai-vos a Deus e ele se chegará a vós outros…”

    É assim mesmo?

    Alguém pode dizer que este princípio anula a soberania de Deus. Pelo contrário, foi Deus que estabeleceu por vontade dEle. E por sua justiça.

    O homem não está no controle de tudo, sabemos disto. Não posso escolher tudo o que farei no reino de Deus, nem qual o dom ou ministério que eu vou exercer, pois depende de um chamado específico, depende da vontade de Deus.

    Por outro lado, porém, o Nosso Pai tem um projeto completo para nós, que se completará conforme minha resposta a Ele.

    O pastor Luciano Subirá  expressou, em um dos seus livros, “o princípio da reciprocidade afeta a intensidade do meu relacionamento com Deus e a dimensão das minhas conquistas nEle, ainda que não afete o seu plano e propósito para a minha vida.

    Alguém disse que Deus não faz acepção de pessoas, mas faz acepção de atitudes. Podemos ver o exemplo de Caim e Abel. O que Deus viu foi os corações, a atitude de cada um, na expressão das suas ofertas ao Senhor. Deus não está interessado na oferta, mas no coração do ofertante.

    Precisamos entender que temos que dar tudo o que somos ao Senhor, como resposta ao seu amor sem medida por nós.  Uma irmã uma vez falou: “ Você nunca terá tudo de Deus enquanto Deus não tiver tudo de você.”

    Círculos de relacionamento com Jesus

    Algo importante que muitos anos atrás o Senhor falou comigo – e eu quero repartir com vocês -  foi sobre os círculos de relacionamento ao redor do Mestre. Se eu não estou enganado, foi num artigo de uma  revista cristã americana.

    Quando Jesus Cristo, o Filho de Deus, estava neste mundo, como homem (em carne), ele tinha ao redor dele vários círculos de relacionamento.

    Ao ler os evangelhos depreendemos isto. Havia as multidões, em número realmente expressivo.

    Houve também um bom número de discípulos, misturados nesta multidão, que pararam de seguir a Jesus, no decorrer do seu ministério, quando falou que ele era o “verdadeiro pão do céu” e que aqueles que nele cressem deveriam “comer da sua carne”, expressando seu sacrifício na cruz, como o Cordeiro de Deus.

    “Diante disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele.” (Jo 6:66)

    Quando a Bíblia fala em “muitos”, devemos entender “muitos”, que era muita gente mesmo.

    O apóstolo Paulo também expressa, na sua primeira carta aos irmãos em Corinto (I Co 15:6), que havia 500 pessoas próximas que viram o Senhor Jesus ressurrecto. Observamos mais um círculo aqui.

    No Pentecostes, quando lemos o livro de Atos (At 1:15), a igreja reunida ali, em oração, e que recebe o enchimento do Espírito Santo, é formada por 120 pessoas.

    Em Lucas 10, ao enviar equipes de discípulos para pregar o evangelho em localidades vizinhas, Jesus envia os setenta (ou 72, como expressam alguns autores). Mais um círculo.

    Vamos nos aproximando cada vez mais, dentro dos círculos de relacionamento, de uma intimidade maior com o Senhor Jesus.

    Agora chegamos a um núcleo mais definido, que são os doze apóstolos (Mc 3:13-18).

    Neste grupo existiam três discípulos bem chegados, Pedro, e os irmãos Tiago e João.

    E mais perto ainda, bem junto do Mestre, encontramos João.

    Então, podemos descrever os “círculos”:

    • a multidão;
    • os discípulos que acompanhavam e depois deixaram de acompanhar Jesus;
    • os 500;
    • os 120;
    • os 70;
    • os 12;
    • os 3;
    • e João.

    Algumas perguntas para pensarmos:

    (a) Qual seria o motivo de existir vários círculos de relacionamento com Jesus?

    (b) Será que Jesus tinha predileção por alguns e por outros não?

    (c) Ele estaria rejeitando alguns e preferindo outros?

    Vamos lembrar o que falamos do “princípio da reciprocidade” que já tratamos.

    Neste raciocínio e até certo ponto, o princípio funciona aqui, principalmente quando fechamos mais os círculos, a partir do círculo dos 70 discípulos.  Eu creio que estes relacionamentos foram resultado das respostas daquelas pessoas ao amor e à pessoa de Jesus !

    O nosso salvador amava a todos eles e certamente não tinha predileção por alguém em especial, mas a resposta dos discípulos foi diferente.

    Lembremos que Jesus amava as multidões, quando  olha para Jerusalém e chora por ela. (Lc 19:41-44).

    Quando ele lamenta que “Jerusalém matava os profetas e apedrejava aqueles que eram enviados a ela”, Jesus demonstra seu grande amor, que é o mesmo do Deus de Israel, através de uma analogia muito amorosa: “Quantas vezes quis reunir os seus filhos, como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, mas vocês não quiseram.” (Lc 13:34)

    Nas nossas famílias vemos, muitas vezes, “brincadeiras”  entre os filhos dizendo que um irmão é o “queridinho” do papai ou da mamãe. Acho que acontece na maioria das famílias. Observando bem, “parece” que tais filhos são mais carinhosos aos pais, são mais obedientes, mas receptivos à repreensão, e mais atenciosos. Creio que isto ocorre em função da resposta ao amor dos pais, que dão a todos os filhos. O ciúme, porém, aflora naqueles outros que não conseguem entender esta reciprocidade. E não agem assim.

    E o nosso problemático personagem?

    Voltemos para nossa viagem (imaginária), onde acompanhamos um rapaz muito problemático, que deve ter dado um pouco de trabalho ao Mestre dos mestres.

    Nosso retrato dele, como um rapaz ciumento, orgulhoso, sem misericórdia e mimado pode parecer exagerado, mas não é. Assim como todos nós, quando estamos longe de Deus, poderemos ter adjetivos, ligados a nossa pessoa, até piores que estes.

    O nome deste rapaz é João. Sim, João, irmão de Tiago. Ele era um dos Boanerges, “filhos do trovão”, mas também é conhecido como “o discípulo amado” ou o “discípulo a quem Jesus amava”.

    Ele foi o “apóstolo do amor”, aquele que escreveu um dos evangelhos com mais detalhes de alguns acontecimentos, na vida de Jesus: a descrição do encontro de Jesus com a mulher samaritana, o seu encontro com Nicodemos, a ressurreição de Lázaro e o relacionamento com suas irmãs.  E a última ceia. Todos são magistralmente escritos neste evangelho.

    Ele também escreveu 3 maravilhosas cartas, que até hoje formam um bom resumo de como devemos viver a vida cristã. E o livro de Apocalipse.

    Este apóstolo que ficou até o fim no martírio e sacrifício de Jesus. Foi o apóstolo que naquele momento doloroso da crucificação é escolhido pelo Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo para o encargo de cuidar de sua mãe. Que grande confiança e que grande privilégio.

    Perguntas que novamente sou obrigado a fazer:

    - O que mudou na vida deste rapaz?

    - Qual foi o fator de transformação na vida de João?

    Certamente o Espírito de Jesus, o Espírito Santo mudou totalmente a sua vida. João começou a andar “bem juntinho” de Jesus. A Bíblia relata que ele ficava junto ao peito de Jesus, ouvindo as batidas do coração do Mestre. E ele aprendeu isto com quem? Com Jesus mesmo.

    O Filho tinha esta proximidade com o Pai na eternidade.  Em João 1:18 fala que “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou.” No original, no dicionário Strong, esta palavra traduzida como “seio” significa “a frente do corpo entre os braços, colo, regaço; o peito de uma vestimenta,  a concavidade formada pela parte dianteira superior de uma vestimenta ampla, amarrada por uma cinta ou faixa…”. Tal expressão indica muita proximidade.

    Lembremos que esta proximidade não foi uma imposição de Jesus e nem uma preferência deliberada do Senhor. Foi, isto sim, uma resposta de João a tudo aquilo que ele viu e experimentou com o Filho de Deus. E de sua comunhão com ele.

    E esta proximidade mudou tudo na vida de João. E refletiu na sua obra.

    Então, o que podemos concluir?

    O  que Nosso Pai está nos dizendo é o seguinte, como bem expressou o Pr. Subirá: “O que vocês estão vivendo não é, necessariamente, a minha vontade, tampouco a revelação de quem eu sou. Trata-se apenas das consequências das suas escolhas e atitudes.”

    E eu completaria: “Eu tenho planos para vocês, meus pensamentos são mais altos que os pensamentos de vocês. Confiem e correspondam ao meu amor.”

    O filho pródigo (Lucas 15:11-31) poderia passar o resto da sua vida longe do seu pai. Quando terminou seus recursos e chegou uma grande crise no país, já passando fome e privação, ele volta, porém, para o seu pai. O gastador da herança do seu pai, lá no fundo, tinha certeza do amor paterno. Um detalhe importante mostra, na sua volta, que o pai  o enxergou ainda de longe.  Foi correndo ao seu encontro, o abraçou e o beijou (Lc 15:20). O pai perdoa, dá novas roupas, coloca um anel no dedo e sandálias novas nos pés. E faz uma grande festa, matando o melhor bezerro, para seu filho resgatado.

    Quando correspondemos ao amor de Deus, coisas maravilhosas acontecem. A melhor delas: a intimidade e comunhão com o Pai. Precisamos tomar decisões práticas em amar a Deus de todo o nosso coração, assim como Ele nos amou com amor eterno.

    Que Deus nos abençoe.

     

     

     


    28 maio 2019 | CAC | Nenhum Comentário | Tags:

Sobre o Autor

CAC

Comments are closed.