Marta e Maria, dois tipos de discípulos
  • Pr. Jorge Thomaz

    Com sinceridade de coração creio que estamos vivendo dias difíceis, talvez os dias do fim, conforme fomos alertados pelo apóstolo Paulo, dias em que os valores espirituais, morais, familiares e éticos se perdem numa velocidade assustadora. Por isso, entendo que há uma necessidade de estarmos atentos e vigilantes, remindo o tempo.

    Há uma desesperança em todos os níveis sociais com relação às perspectivas do futuro, pois não existe uma voz que proponha algo diferente ao que se vê avançando e deteriorando a sociedade.

    Acredito que a única força capaz de trazer uma mensagem diferente, que seja relevante e capaz de mudar as vidas e, por consequencia, a realidade em que vivemos se chama igreja, pois somos fomos chamados para ser a luz do mundo e para resgatar aquilo que tem sido roubado. Cabe a nós impedir que os marcos originais sejam removidos de seus lugares.

    Assim, precisamos conhecer plenamente a vontade de Deus para as nossas vidas, para que possamos ser discípulos e por causa disto, servir e fazer a obra que nos está proposta.

    Com o desejo de ajudá-lo nesta compreensão, gostaria de compartilhar este breve devocional, abordando dois tipos de cristãos existentes na época de Jesus e também em nossos dias. Estes dois modelos podem também caracterizar dois tipos de igreja, por isso, vamos analisá-los com um pouco mais de cuidado.

    Refiro-me a Marta e Maria, duas personagens citadas em três momentos diferentes nos evangelhos, são personagens que amam sinceramente a Jesus, porém têm expectativas e comportamentos distintos em relação a Ele e quando estão com Ele.

    UMA CASA EM BETÂNIA

    O primeiro momento em que elas aparecem nas escrituras ocorre quando Jesus vai a sua casa. Vejamos o texto:

     “… E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa; E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude. E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada…”  Lucas 10:38-42 ACF

    A aldeia de Betânia era uma cidadezinha, ou melhor, um povoado, bem perto de Jerusalém. O Senhor sempre ia até lá e isto, simplesmente porque naquele lugar havia uma casa aberta para Ele. (Jesus jamais deixa de entrar em uma casa que está aberta para acolhê-lo.)

    Talvez nesta casa, Jesus tenha passado seus últimos momentos de tranqüilidade e paz ao lado de seus amigos Marta, Maria e Lázaro.

    MARTA

    O texto sagrado nos mostra que Marta estava ocupada e agitada providenciando todas as coisas para receber o Senhor. Ela estava cuidando de cada detalhe, nada poderia sair errado, pois seu hóspede era alguém muito importante e merecia o melhor.

    Assim, ela se esmerou em cada detalhe para lhe proporcionar a melhor recepção e estada. Enquanto Marta realizava um serviço, pensa­va em outro e mais outro e mais outro. E assim foi ficando cada vez mais agitada e, por fim, desanimada, inquieta, irritada, e começou a murmurar. O seu trabalho de amor estava se tornando uma tarefa pesada demais!

    Marta começa motivada e animada, mas com o tempo, por procurar fazer tudo do seu jeito e na força do seu braço, a fadiga do trabalho lhe roubou a alegria.

    É como uma pessoa que se preocupa tanto em organizar uma festa, que, sem perceber, acaba sendo áspera com as pessoas a sua volta e quando chega na hora da festa tudo está perfeito, mas os convidados estão sem graça, pois o motivo da festa era estarem juntos para se alegrar e não a perfeição dos detalhes, como a dobra de um guardanapo que está colocado sobre a mesa.

    Isto nos mostra o perfil de Marta: Alguém que, naquele momento, não consegue discernir a essência e do que é superficial; o que de fato é importante e central, daquilo que é secundário.

    Ela não percebeu que Jesus estava em sua casa porque Ele queria ter comunhão com sua familia e não pela comida que seria servida ou pela toalha que seria posta à mesa.

    A agitação, a distração e a ansiedade, impedem Marta de desfrutar aquele momento, de desfrutar da presença do Senhor;

    “… Marta, porém andava distraída em muitos serviços…”

    Existe a igreja que se distrai. A palavra grega usada aqui é “perispao” e traz a ideia de “separar, afastar, distrair, entrar num estado de estresse mental, estar super ocupado, bastante atarefado, a respeito de algo”.

    Olhando este quadro sou levado ao seguinte questionamento: Qual distração tem roubado o teu tempo de desfrutar à presença do Senhor e do que é importante para Ele?

    O teu casamento, por estar bom demais ou ruim demais?

    Os teus filhos, porque você os está colocando acima de tudo?

    A situação financeira?

    O teu emprego ou teu desemprego?

    O teu time de futebol que vai jogar “bem na hora” do culto?

    O teu ministerio?

    Devemos fazer uma coisa sem negligenciar a outra, antes dando a cada uma o seu devido peso e valor.

    Você sabe aonde toda esta distração vai te levar? A um lugar chamado murmuração!

    Veja o que aconteceu com Marta:

    Exausta e frustrada ela percebe que sozinha não tem condições de cuidar da situação e então se revolta, chegando mesmo a pensar que Jesus não está vendo ou reconhecendo seu trabalho, pensa que Ele está tratando a situação com parcialidade, porque se agrada mais de Maria do que dela. Olhando isto, quando creio caber a seguinte pergunta:

    Quais motivações têm movido nossos corações?

    Necessidade de aceitação, de ser reconhecido ou ainda o perfeccionismo;

    Podemos comparar Marta a alguém ou a uma igreja que vê às necessidades e procura solucioná-las através de seus próprios esforços.

    Porém esta atitude lhe rouba as forças e a energia, além disso, impede a atuação do Senhor, gerando frustrações, decepções e murmurações e isto fica muito claro no momento em que Marta diz:

    “… e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude…”   Lucas 10:40  ACF

    FOCO

    Marta representa a igreja que perde o foco, prestando mais atenção na forma, no processo e na estrutura, do que na essência.

    É a igreja onde pessoas vêem ao culto e perdem o momento precioso da celebração e da adoração reparando no jeito como o outro adora ou no tipo de roupa que está usando.  Não estou sugerindo aqui que deve haver desordem ou desonra a Deus, mas lembrem-se o Senhor está olhando o interior e não o exterior, Ele está olhando o coração e não a ação.

    Marta representa a pessoa ou igreja controladora, que por ser tão perfeccionista na busca pela excelência nem percebe que o motivo para buscar o zelo é a presença de Jesus.

    A ansiedade de Marta vem pela necessidade de manter o controle de todas as coisas, quando vem a perda do controle ou um imprevisto, quando ela percebe que não está mais dando conta, seja de sua vida pessoal e familiar ou ainda, que a igreja está morrendo e ela precisa achar um responsável por isso, cobra do Senhor porque Ele não está interferindo na situação.

    Assim como existe a igreja que é distraída, existe também a ansiosa. A palavra usada aqui é “merimnao”, cujo significado é: “estar ansioso, estar preocupado com cuidados, cuidar de, estar alerta com, ocupado antes da hora”.

    Jesus nos exorta a não andar ansiosos por coisa alguma e Paulo nos diz para colocar todas as nossas ansiedades diante do Senhor.

    MARIA

    Em contrapartida a atitude de Maria é oposta à de Marta:

    “… E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra… Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisa, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada…” Lucas 10:39; 41-42  ACF

    Será que Maria não estava desejosa de oferecer a Jesus a melhor recepção?  Lógico que estava, porém ela sabia dar a cada momento o seu valor.

    MORTE DE LÁZARO – DOIS ENCONTROS

    O segundo momento onde são apresentadas é quando da morte de lázaro:

     “… E muitos dos judeus tinham ido consolar a Marta e a Maria, acerca de seu irmão. Ouvindo, pois, Marta que Jesus vinha, saiu-lhe ao encontro (hupantao); Maria, porém, ficou assentada em casa. Disse, pois, Marta a Jesus: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus,  Deus to concederá. Disse-lhe Jesus: Teu irmão há de ressuscitar. Disse-lhe Marta: Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia. Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?” João 11:19-26 ACF

    A expressão, aqui traduzida por “… saiu-lhe ao encontro…”  traz um sentido de embate, de um encontro de natureza militar, de hostilidade, de confronto, de cobrança, de afronta.

    Agora, entendendo o significado da palavra hupantao, visualize comigo o encontro de Marta com Jesus. Marta sequer espera Jesus chegar até ela, mas corre ao seu encontro e logo expressa o estado de seu coração. Então vamos ler novamente este dialogo, agora com a conotação correta:

    “… Disse, pois,  Marta a Jesus: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido…” João 11:21 ACF

    Diante da postura de Marta, Jesus se vê obrigado a relembrá-la quem Ele é e o poder que tem. Jesus lhe faz uma advertencia, como que lhe dando uma aula de doutrina: “Eu sou a ressurreição e a vida! ”

    Agora, vejamos como foi o encontro de Maria com Jesus:

    Ao saber que Jesus se aproximava Maria ficou apenas aguardando sua chegada até ser chamada por Ele.

    … O Mestre está cá, e chama-te. Ela, ouvindo isto, levantou-se logo, e foi ter com ele. Tendo, pois, Maria chegado aonde Jesus estava, e vendo-o, lançou-se (pipto) aos seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido…” João 11:28; 32 ACF                                                                                                

    O texto diz que Maria, chegando ao lugar onde Jesus estava lançou-se aos seus pés. A palavra usada para lançar-se aos pés é “pipto” e denota a ideia “de cair prostrado”, palavra usada para pessoas que suplicam, rendendo honra a alguém, pois não tem autoridade e nem força diante de uma circunstância, traz a ideia de rendição total.

    Diante da atitude de Maria, de humildade e dependência, Jesus fica profundamente comovido, ela toca profundamente seu coração. O texto diz que Jesus chorou.

    Eu fico assustado quando vejo pessoas que ao orar dizem frases do tipo “Senhor tu tens que fazer isso ou aquilo!”

    Quando Jesus se encontra com Maria Ele não precisa relembrá-la de quem Ele era e nem o poder que Ele tinha, porém está escrito:

    “… Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-se muito em espírito, e perturbou-se. E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê. Jesus chorou…”  João 11: 33-35 ACF                                                                            

    UM NOVO ENCONTRO

    Finalmente as encontramos no momento da unção de Jesus em Betânia, o texto sagrado assim nos mostra este momento:

    “… Foi, pois, Jesus seis dias antes da páscoa a Betânia, onde estava Lázaro, o que falecera, e a quem ressuscitara dentre os mortos. Fizeram-lhe, pois, ali uma ceia, e Marta servia (diakoneo), e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tomando um arrátel (frasco) de unguento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos. E a casa encheu-se com a fragrância do perfume…”  João 12:1-3 ACF                                                                     

    O texto apenas cita que Marta estava servindo, porém não fala de murmurações ou reclamações. Creio que algo havia mudado em seu coração, creio que, em função das experiências vividas por Marta, a motivação em seu coração para servir havia mudado, havia sido ajustada, pois a palavra empregada aqui é “diakoneo”, que traz o seguinte sentido: “servir como diácono; ministrar; participar de qualquer evento que possa servir aos interesses de outros; ministrar uma coisa para alguém, servir alguém ou suprir alguma necessidade”.

    Enquanto isto, Maria, mais uma vez estava com a melhor parte, lançada aos pés de Jesus, entregando-lhe um perfume de altíssimo preço.

    CONCLUSÃO

    Finalmente irmãos, meditando nestas passagens eu consigo ver dois tipos de cristãos ou igrejas, o carnal, controlador e almático (o emocionalmente imaturo), que serve com uma motivação de oferecer o melhor, mas que também espera algum tipo reconhecimento, e o cristão espiritual, aquele que entende a importância da organização e do serviço, mas não abre mão da melhor parte que é “estar aos pés de Jesus”.

    A quantidade de cristãos do tipo Marta e de cristãos do tipo Maria existentes no rebanho define o modelo de uma igreja; define se ela é uma igreja carnal ou espiritual, define se ela entende e se move pelo propósito de Deus ou meramente por impulso; se ela se move por experiência ou por revelação; se ela fará diferença ou não no meio onde está inserida.

    Aquilo que nos move, mostra o que verdadeiramente está em nossos corações; mostra quem realmente somos.

    Você sabe por que existe um grupo tão grande de cristãos que circulam entre uma igreja e outra e acabam sempre insatisfeitos e altamente críticos?

    Porque ainda não entenderam que Jesus os chamou para a melhor parte, a parte que Maria escolheu, estar aos seus pés numa atitude de adoração, rendição e humildade apesar dos conflitos e tribulações da vida, mas plena de confiança e fé e não no controle da situação e de cobrança em relação a Deus.

    Concluindo, a única coisa que precisamos decidir é: que tipo de cristãos e de igreja queremos ser, tipo Marta ou tipo Maria?

    Que Deus nos ajude a escolher a melhor parte e cumprir o seu propósito sobre a terra nestes dias do fim.

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    * Jorge Thomaz Oliveira, 55,  pastor responsável pelo Ministério Pastoral da Igreja Avivamento em Curitiba, PR. Casado há 34 anos com Mirian, pai de duas lindas filhas, Raquel e Paula.

    jorge e mirian

     


    11 julho 2017 | CAC | Nenhum Comentário |

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